Lifestyle

Em algum dia abençoado no ano passado fui dar uma xeretada na página da Emma Watson no imdb por causa da participação dela em As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012) dentro de alguns meses. E pra minha surpresa também vi que em 2013 ela estrelaria o novo filme nada mais nada menos que da própria Sofia Coppola. Mas na época, como a estreia ainda tava longe, nem pesquisei sinopse nem nada, simplesmente fiquei feliz com a informação e pronto. Só que aí divulgaram o trailer e a coisa mudou de figura: vi uma Emma bizarra com sotaque de Carioca California Gurl, dançando com linguinha de fora e tudo.

O filme se chamava The Bling Ring e tinha sido inspirado pela polêmica despertada por uma série de roubos perpetrados entre 2008 e 2009 por um grupo de adolescentes da classe média-alta dos subúrbios abastados de Los Angeles. O alvo da quadrilha: as mansões das celebridades mais cobiçadas de Hollywood. A Coppola teve a ideia de fazer o longa depois de ler uma matéria da Vanity Fair que tratava do assunto. E enfim, esse ano, por ocasião da estreia do filme, a mesma jornalista que tinha escrito o artigo da revista publicou um livro em que contava mais a fundo toda a sua experiência enquanto repórter durante a cobertura do caso.

Em Bling Ring – A Gangue de Hollywood, a Nancy Jo Sales tenta compreender as razões pelas quais esses adolescentes tão obcecados pela fama e pelas celebridades se sentiam tão no direito de invadir as casas dos famosos, sem a menor cerimônia, e levar milhares de dólares em roupas, acessórios e obras de arte. O livro se divide em três partes e mescla impressões da autora, entrevistas com os próprios condenados e outros envolvidos, relatos judiciais e policiais, e estudos acerca da mídia, de programas de TV e até do crescimento da indústria pornográfica.

Nos capítulos em que a jornalista entrevista esses adolescentes, eu tinha que me forçar pra lembrar de que tudo se tratava de não-ficção, de que essas pessoas são reais e pensam que a fama é o maior objetivo que pode ser alcançado nesse mundo. O pior é que é uma coisa tão entranhada no pensamento deles, que eles nem se dão conta daquilo que tão dizendo. Nesse ponto pode-se dizer que a jornalista não poupou parcialidade. Os comentários sarcásticos e as observações intencionadas que ela faz no seu relato mostram claramente sua desaprovação diante daqueles jovens.

No entanto, esse julgamento não fica na superficialidade de uma simples declaração de que esses adolescentes são frívolos. A autora também se empenha em buscar motivos por trás desse nosso fascínio/obsessão com a fama. Os capítulos que mais me interessaram foram aqueles em que ela se lança num estudo comparativo entre o mundo que cerca os jovens de hoje e o mundo das décadas de meados do século XX, por exemplo. Em um deles ela contrasta os programas de tv de duas épocas: nos anos 2000, séries como The O.C, Gossip Girl e Hanna Montana – cujos valores principais são fama, riqueza e destaque pessoal – tiveram larga aceitação entre pré-adolescentes e adolescentes, enquanto nos anos 60, com uma audiência da mesma faixa etária, programas como The Andy Griffith Show valorizavam o sentimento de comunidade e a autoaceitação.

GossipGirl9Outra conclusão que me chamou a atenção foi a de que hoje nós ainda condenamos quem busca a fama pelo simples fato de ser famoso, mas parecemos não ter nada contra quem persegue o dinheiro pelo simples fato de querer ser rico. Nesse sentido, a Nancy Jo Sales iguala a obsessão pela fama com a obsessão pelo dinheiro baseada no fato de que todos os entrevistados falam da vida de celebridade não exatamente do ponto de vista de ser conhecido publicamente, mas muito mais pelo ~~lifestyle: mansões, carros, boates exclusivas, joias, etc.. É incrível como essa palavra aparece durante toda a leitura do livro. No fim das contas esse fascínio pelo dinheiro parece ser a raiz de todo o problema, embora a autora não se proponha a oferecer nenhuma resposta definitiva.

Sendo jornalista, ela emprega uma linguagem bem objetiva e bem construída, com uma argumentação estruturada de forma a deixar claras as suas opiniões próprias. Talvez essa parcialidade possa incomodar alguns, mas como eu estou de acordo com a maioria do que ela escreveu, não foi um problema. Tampouco foi a cronologia meio estranha que ela utilizou. Apesar das muitas idas e vindas no tempo, esse movimento entre passado e futuro me pareceu pertinente pro que ela pretendia falar no momento. Agora o que de fato não me agradou muito foi o ritmo mais vagaroso da última seção do livro. Enquanto a leitura das partes iniciais fluía devido à alternância entre relatos, estudos e entrevistas, o trecho final se arrastava um pouco entre todos os procedimentos jurídicos, julgamentos e sentenças, os quais não eram necessariamente imprescindíveis pra compreensão dos fatos. De qualquer forma, Bling Ring – A Gangue de Hollywood, que no começo, pra mim, era uma mera preparação pro novo filme da Coppola, se tornou um dos livros mais interessantes que eu li nesse ano e um ótimo semancol pro nosso narcisismo de hoje em dia.

Por Eduardo – @edriguez

Advertisements

About Fila do Pão

Livros, filmes, TV e o que der na telha.
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s