Pianoquetéis e Nenúfares

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Não acompanhava o trabalho do Michel Gondry desde Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (lançado em 2004) – ainda não acredito que não vi Sonhando Acordado -, por isso não me lembrei prontamente dele enquanto lia os comentários e as críticas sobre A Espuma dos Dias (L’Écume des Jours), que andou circulando por festivais europeus esse ano. Baseado no romance homônimo de Boris Vian, o longa conta a trágica história de amor entre Colin (Romain Duris) e Chloé (Audrey Tautou), num mundo que parece muito a Paris de meados do século XX, mas que funciona de uma maneira, digamos, peculiar. O livro, já adaptado para os palcos e para o cinema, figura na décima posição da lista dos melhores do século passado compilada pela Fnac e pelo jornal francês Le Monde em 1999.

Sem dúvida alguma, o que mais chama a atenção no filme é a configuração do mundo em que vivem as personagens. Do início ao fim, somos cativados pela curiosidade de explorar um universo regido por leis dignas do nosso vizinho realismo mágico. Apertos de mão rodopiantes, eletrodomésticos pensantes, comidas serelepes e passos exagerados de dança são apenas alguns exemplos do atraente mundo que Gondry traz nessa adaptação. O que para nós parece um território de sonhos e imaginação é a maior das banalidades para essas personagens que se movem num ambiente que reflete seus estados interiores, elemento muito bem explorado pela fotografia. À medida que a história de Colin e Chloé adquire contornos trágicos, a luz e os cenários se fazem mais lúgubres, porém de uma forma tão sutil que você até se assusta ao constatar que o que era uma explosão de cores e vivacidade no início se tornou uma pobre aquarela de cinquenta tons de cinza quase monocromática.

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No entanto, ao longo dos seus 125 minutos, o feitiço quase que se vira contra o feiticeiro e o filme de certa forma cai na armadilha que ele mesmo criou: o foco nos efeitos especiais e na caracterização desse ambiente mutante e onírico. Os excelentes aspectos técnicos, assim, parecem não ser suficientes para sustentar a trama principal, o que não aconteceu em Brilho Eterno. A história de amor se desenrola mais pela sequência de fatos do que pelos sentimentos dos protagonistas. O que marca o Colin é mais a vontade inicial de querer amar alguém do que seu próprio amor pela Chloé. Se, no fundo, se trata mesmo de um romance, senti falta desse momento em que eles se apaixonam, apesar das belas cenas dos encontros entre o casal (as danças nas festas e o passeio de nuvem, por exemplo). Além disso, fiquei com um gostinho de quero-mais nas diversas alusões ao famoso autor “Jean-Sol Partre” – claro jogo de palavras com o nome do filósofo francês Jean-Paul Sartre – já que me falta mais conhecimento da obra do autor, o que obviamente não é culpa do filme, mas fiquei com a impressão de que o livro talvez seja mais claro tanto quanto ao desenvolvimento do romance quanto à relação da filosofia do Sartre com a história em si. O que resta de A Espuma dos Dias é um longo filme visualmente intrigante, mas talvez um pouco enfadonho dependendo do humor do espectador.

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About Eduardo

Manauara, 22, professor de inglês, estudante de Letras.
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