Indigestão

Praia, festa, cinema, museu e muita comida. O projeto férias está indo a todo vapor, mas, claro, não pude deixar minhas leituras de lado. E sem querer parece que o tema delas tem sido autores contemporâneos. Dentre escritores como Dave Eggers e Ian McEwan – e até John Green – resolvi falar um pouquinho aqui de O Jantar, do holandês Herman Koch. O romance foi publicado em 2009 na Holanda, mas só chegou ao Brasil em 2013, pela editora Intrínseca. Uma versão holandesa cinematográfica estreou também no ano passado e atualmente uma versão americana está em produção, com ninguém menos que a Cate Blanchett como diretora debutante.

O Jantar, como o próprio nome já diz, em suas mais de duzentas páginas trata de uma única refeição feita por dois irmãos e suas respectivas esposas num restaurante sofisticado. Paul é um professor de história atualmente de licença e Serge é o candidato favorito ao cargo de primeiro ministro holandês. O motivo do jantar, a princípio, não é muito evidente, mas aos poucos percebemos que se trata de uma discussão acerca de certos atos terríveis cometidos pelos filhos de ambos os casais. Opiniões divergem, nervos afloram e temos um final surpreendente e perturbador.

O que de cara me atraiu no romance foi a sua divisão, como as partes de um jantar de fato: aperitivo, entrada, prato principal, sobremesa e digestivo. Cada parte, apropriadamente nomeada, desvenda um pouco do que se passa com cada componente da mesa e aos poucos começamos a entender os motivos por trás do evento. Paul, como narrador principal, tem um papel importantíssimo na nossa percepção da história. No início confiamos e até simpatizamos com ele diante de suas críticas plausíveis em relação à personalidade e ao estilo de vida de Serge. Nesse sentido, há muitas digressões no romance nas quais Paul reconta episódios familiares importantes para a nossa construção das personagens. O que nós não esperamos é que o próprio Paul também nos conta certas coisas que nos fazem duvidar da sua autoridade moral perante seu irmão.

Essas várias digressões, contadas em capítulos curtos, acabam sendo mais interessantes que o jantar em si. Elas compõem o que, para mim, é o mais marcante no romance: um retrato da vida de certos membros das classes dominantes de muitos países ocidentais. Ao tratar de temas como dinheiro, racismo, misoginia, política e crime, o livro expõe, a princípio de forma sutil, o pensamento de muitas pessoas com as quais convivemos todos os dias, ou pior ainda, os nossos próprios. Muitas histórias já têm feito isso recentemente, mas a grande sacada de O Jantar é fazer isso aos poucos, inicialmente colocando nossa confiança num relato aparentemente sensato e depois puxando o tapete lentamente sob os nossos pés. O que antes era confiança passa a desconfiança e por fim a horror. O autor, assim, nos convida a partilhar de um pensamento do lado de dentro para enfim revelar o que há de podre por trás de um pintura bonita.

Advertisements

About Eduardo

Manauara, 22, professor de inglês, estudante de Letras.
This entry was posted in Livros and tagged , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s